sexta-feira, 9 de maio de 2008

Origem do nome do blog....

O texto ao final deste tópico, marcou-me profundamente, marcou-me da primeira vez que o li e ainda me causa impactos profundos todas as vezes que o releio.

Extremamente utilizado em nosso dia, a frase Se eu fosse você, nos acompanha sempre que tentamos aconselhar outros a fazerem o que faríamos em situação semelhante.


Como se pudéssemos de uma hora para outra deixar nossa vida, nosso corpo, nossa mente, nossos sentimentos, e viver inteira e intensamente a vida de outra pessoa.

E ainda, ao declararmos essas palavras, Se eu fosse você, é como se tivéssemos a receita mágica para resolver todos os problemas, dos outros é claro, pois os nossos nesse exato momento são resolutamente jogados para debaixo do tapete.

Clarice, desculpem-me pela ousadia, mas nesses momentos sinto-a como se fosse minha amiga íntima, nos convida no texto Se Eu Fosse Eu, a nos aventurar por outros caminhos, mais intensos e interessantes.

Se Eu Fosse Eu, é um convite ao auto-conhecimento, às possibilidades internas que cada um de nós possui, e em última e preciosa instância nos oferece um convite à VIDA plena, plena se sentido, de sentir.

Foi deste texto que surgiu o nome deste blog, pois ao escrever estou também respondendo a um dos meus tremores que senti ao ler pela primeira vez Se Eu Fosse Eu.

Pois Se Eu Fosse Eu, eu escreveria o que penso, o que sinto, e como percebo o mundo e a mim mesma.

Vamos à sublime Clarice. Aproveitem!

SE EU FOSSE EU.

por Clarice Lispector

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais


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